14 de junho de 2012
O guitarrista Raul Nery, 91 anos, faleceu hoje de madrugada na sua residência em Lisboa, disse à Lusa a diretora do Museu do Fado, Sara Pereira.
Raul Nery, engenheiro de profissão, constituiu em 1959, o primeiro conjunto de guitarras de fado, formado por si e por José Fintes Rocha, Júlio Gomes e Joel Pina. No passado 10 de junho tinha sido condecorado pelo Presidente da República com a Ordem de Mérito, grau comendador.
O velório de Raul Nery realiza-se a partir das 18:00 na igreja de S. João de Deus, à praça de Londres, em Lisboa. Na sexta-feira é rezada missa de corpo presente às 14:00, seguindo-se o funeral para o cemitério dos Olivais, onde se realiza a cerimónia de cremação às 16:00.
Como instrumentista acompanhou todos os nomes de referência no fado até á década de 1980, entre eles, Amália Rodrigues, Hermínia Silva, Maria Teresa de Noronha, Berta Cardoso, Fernando Farinha, Tristão da Silva, Tereza Tarouca, Tony de Matos e Alfredo Marceneiro.
“Em 1933 era merecedor do destaque ‘o jovem fadista e prodigioso guitarrista’, num programa que anunciava um espetáculo misto, ao lado do viola Alfredo Gomes Azevedo e da fadista Ercília Costa”, refere o Museu.
Raul Filipe Nery nasceu em Lisboa, na freguesia de Santa Engrácia, e começou por tocar bandolim, e mais tarde guitarra portuguesa, por influência de um tio, como contou numa entrevista à Lusa. Apresentou pela primeira vez em público, de calções, aos nove anos, no teatro de São Luiz, em Lisboa.
Em 1939 integrou o elenco da casa de fados Retiro da Severa, em Lisboa, ao lado de Armando Freire, conhecido por Armandinho, Abel Negrão e Santos Moreira. Numa entrevista à Lusa, afirmou: “Eu aprendi muito com o Armandinho, ele ia criando umas melodias, e eu fixava-as de cabeça com muita facilidade, ia para casa e no outro dia continuávamos a trabalhar na melodia. Foi quem mais me influenciou e ganhei algumas maneiras como ele tocava”.
Também na mesma altura estreia-se nesta casa artística, Amália Rodrigues que viria a acompanhar em muitos espetáculos, nomeadamente os do Plano Marshall, após a II Grande Guerra. Entre vários episódios recordou um em que foram ovacionados de pé no Teatro Argentina, em Roma, “integrados num elenco predominantemente da música clássica”.
Acompanhou até ao fim da sua carreira, em 1962, a fadista Maria Teresa de Noronha, quer no programa semanal que a fadista manteve até 1961, quer em espetáculos. Da fadista, guardava “as melhores recordações, pelo profissionalismo, o carisma artístico e personalidade”, confidenciou Nery à Lusa.
Além, de Ercília Costa referenciada na imprensa como “a santa do fado”, Amália e Teresa de Noronha, Raul Filipe Nery acompanhou Márcia Condessa, Berta Cardoso, Estevão Amarante, entre muitos outros, quer nos palcos do teatro da revista, quer em espetáculos, na televisão e em casa de fado. Além do Retiro da Severa, integrou os elencos do Café Luso, Adega Machado e Adega Mesquita, nesta última acompanhou Fernando Farinha, com o qual estabeleceu “fortes laços de amizade, a ponto de o convidar para padrinho dos meus filhos”, como disse à Lusa.
Raul Nery concluiu, entretanto, o curso de agente técnico de engenharia e integrou em 1954 os quadros da petrolífera Sacor. Em 1959 fundou o Conjunto de Guitarras de Raul Nery constituído inicialmente por si, pelo guitarrista José Fontes Rocha, pelo viola Júlio Gomes e pelo viola baixo Joel Pina. “Todos os grandes de Amália, Maria Teresa de Noronha, Hermínia, a Tony de Matos, Max, Fernanda Maria, gravaram connosco”, recordou Joel Pina, numa entrevista à Lusa.
O quarteto apresentou-se nos estúdios da ex-Emissora Nacional, contabiliza inúmeras gravações em disco e no acompanhamento de artistas. Adelina Ramos, Estela Alves, Isaura Alice de Carvalho, Noémia Cristina, Júlio Vieitas, José Coelho, Frutuoso França, Francisco Martinho, Lídia Ribeiro, Frei Hermano da Câmara, Vicente da Câmara, Florência, Ada de Castro, José Ferreira-Rosa, Teresa Silva Carvalho, António Mourão, Carlos do Carmo, Maria da Fé, foram alguns dos fadistas que acompanhou.
Entre as várias homenagens e condecorações que recebeu, refira-se a homenagem ao conjunto de guitarras em 1999 no Museu do Fado; a quem em 2010 foi atribuída a Medalha da Cidade de Lisboa, grau ouro; em 2005 Raul Nery recebeu o Prémio Amália Rodrigues Carreira, e no passado 10 de junho, o guitarrista recebeu a Comenda da Ordem de Mérito das mãos do Presidente da República.
@Lusa
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