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No reino da pop: Elas não são Madonna, mas algumas tentaram

22 de junho de 2012

Madonna há só uma, goste-se ou não. Ainda assim, quantas vezes já nos garantiram que esta ou aquela cantora seria "a nova Madonna"? Pelas nossas contas, já foram algumas, e a lista tanto inclui seguidoras pouco subtis como outras que, mesmo tentando um caminho próprio, não deixaram de ser alvo de comparações. 30 anos depois da edição de "Everybody", recordamos parte da corrida ao trono da pop.

"She's not me/ She doesn't have my name/ She'll never have what I have/ It won't be the same, it won't be the same", cantava Madonna em "She's Not Me", um dos pontos altos do pouco consensual "Hard Candy" (2008). Além de um relato de conflitos amorosos com balanço disco sound, a canção também revelou uma tomada de posição da cantora em relação à sua singularidade, deixando de lado quaisquer hipóteses de imitação. O remate era, aliás, devidamente esclarecedor: "She's not me, and she never will be". E a conversa acabava aí...

De facto, ao longo de trinta anos - "Everybody", o primeiro single, foi editado em 1982 -, mais nenhuma figura feminina conseguiu aproximar-se do estatuto de Madonna dentro da pop, o que não quer dizer que não haja quem não tenha tentado. A inspiração não demorou muito a fazer-se sentir, começando pelas fãs adolescentes que, em meados dos anos 1980, revelaram uma predileção por camisolas largas de tons garridos, cabelo oxigenado, brincos largos, maquilhagem carregada e uma vistosa coleção de pulseiras e braceletes - reação imediata à iconografia dos tempos de "Madonna" (1983) e "Like a Virgin" (1984), com matriz consolidada no filme "Desesperadamente Procurando Susana" (1985), de Susan Seidelman, em que Madonna praticamente interpretava... Madonna (não por acaso, num dos seus desempenhos mais elogiados).

Madonna - "Everybody" (1982):



Além de marcar inúmeras fãs por todo o mundo, o seguidismo refletiu-se em cantoras tão jovens como estas, símbolos de uma pop ligeiríssima mas de grande densidade hormonal: o atrevimento de "Touch Me" (1986), de Samantha Fox, talvez não tivesse existido sem o choque de "Like a Virgin" (1984), e assim os anos 1980 jamais seriam os mesmos para muitos adolescentes. No caso de outra one hit wonder, Stacey Q, a colagem a Madonna foi mais evidente - no videoclip de "Two of Hearts" (1986) não dispensou quer o look mais urbano, com óculos de sol, indumentária negra e cabelo despenteado, quer o vestido branco de rendas, ambos indissociáveis da rainha da pop na altura.

Stacey Q - "Two of Hearts" (1986):



Tiffany ou Paula Abdul são outros exemplos de cantoras desse campeonato que o tempo se encarregou de fazer esquecer, ou que pelo menos não tratou com grande generosidade - embora a primeira ainda grave discos e a segunda seja jurada de concursos televisivos de música. Mas se estas dificilmente teriam grande hipótese de chegar ao trono da pop, há quem garanta que quase o conquistou. É o caso de Kim Wilde, cuja new wave orelhuda somava êxitos até que Madonna chegou, viu e venceu. "Mentiria se dissesse que isso não me incomodou, mas nunca deixei de gostar dela. E olho para ela hoje e acho que é espantosa", confidenciou a voz de "Kids in America" ou "Cambodia" ao site contactmusic.com, comentando o "efeito negativo" que a rainha da pop teve na sua carreira.

Kim Wilde - "Schoolgirl" (1986):



Frequentemente apontada como a grande adversária de Madonna de então, Cyndi Lauper, outro ícone de rebeldia pop-rock, também reconhece o mérito da "material girl". "Inspirámo-nos uma à outra. Ela inspira-me porque ainda continua, tem ótimo aspeto e eu estou sempre a fazer dieta. Nunca consigo manter uma dieta, mas ela está fantástica, como sempre, e isso é inspirador", contou, em tom de brincadeira, em entrevista recente à Rolling Stone, desfazendo ainda quaisquer rumores de concorrência nos anos 1980, alimentados por alguma imprensa. "Partia-me o coração que nos colocassem uma contra a outra. Sempre acreditei que o companheirismo é algo poderoso e gostava de ter uma amiga na indústria, outra rocker. Mas quando te tornas popular, isolam-te repentinamente".

Cyndi Lauper - "Girls Just Want to Have Fun" (1983):



Há poucos meses, Madonna pareceu recordar esses dias quando cantou "Girls, they just wanna have some fun" no single "Girl Gone Wild", alusão direta a "Girls Just Want to Have Fun", uma das canções mais populares de Cyndi Lauper. Curiosamente, o videoclip desse tema também foi buscar alguma coisa não só ao de "Express Yourself", da própria Madonna, como ao de "Alejandro", de Lady Gaga, a estrela que, nos últimos anos, mais tem sido acusada de plagiar a rainha da pop (sobretudo no single "Born This Way") enquanto é apontada, por vozes menos críticas, como a sua sucessora mais forte.

Lady Gaga - "Born This Way" (2011):



A verdade é que, ao longo destes trinta anos, mais nenhuma figura feminina além de Gaga foi capaz de replicar - e sobretudo de ampliar, por vezes de forma gritante - a provocação e excentricidade que vincou alguns episódios do percurso de Madonna. Kylie Minogue, encarada por algumas vozes como uma resposta australiana em finais dos anos 1980, nem sequer tem tentado, e parece sentir-se confortável com o epíteto de doce princesinha da pop. Gwen Stefani chegou a ameaçar seguir os passos de Madonna, mas voltou aos No Doubt depois de dois discos a solo. Katy Perry ou Ke$ha inspiram-se na vertente party girl sem grandes pretensões. Britney Spears e Christina Aguilera convenceram muitos de que seriam capazes de disputar o trono da pop - com direito a "benção" da rainha, nos MTV Video Music Awards de 2003, através do polémico beijo na boca - e se a carreira da primeira até tem sobrevivido (apesar dos acidentes de percurso), a da segunda não apresenta grandes sinais de retoma.

Madonna há só uma, portanto. Mas também há quem diga que já esteve mais confiante. Pelo menos quando, num dos momentos da sua nova digressão, centrada em "MDNA", não resiste a colocar excertos de "Born This Way", de Lady Gaga, em "Express Yourself", mistura que alguns consideram uma farpa bem lançada e que outros acusam de reação desnecessária. No caso do ensaio em Tel Aviv, no final de maio, antes do arranque da digressão, essa mistura até terminou com "She's Not Me" (só para o caso de alguém não ter percebido). E a guerra do trono da pop (no feminino), como terminará? Talvez o concerto em Coimbra, este domingo, ofereça mais algumas pistas...

@Gonçalo Sá



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