01 de fevereiro de 2012
"Old Ideas" não leva ninguém ao engano: o 12º álbum de originais de Leonard Cohen não tem, de facto, muitas ideias novas. Mas, convenhamos, também não precisa quando o trovador canadiano trata bem as antigas.
Já sabíamos que Cohen estava em boa forma. Afinal, da última vez que passou por cá, em 2010, com um concerto no Pavilhão Atlântico, fez muito mais do que limitar-se a picar o ponto - as cerca de três horas de atuação nunca soaram a frete nem para ele nem para o público, ainda que a digressão tenha sido consequência, pelo menos em parte, do desfalque de milhões levado a cabo pela sua ex-manager, deixando-o na bancarrota em 2005.
Do que já não estaríamos tão certos era que essa vitalidade em palco tivesse correspondência na inspiração para novas composições. Se não faltaram discos e DVDs ao vivo nos últimos anos, o registo de originais mais recente, "Dear Heather", datava de 2004. Agora, quase dez anos depois, muitas modas musicais podem já ter nascido e morrido mas Cohen, esse, mantém-se igual a si próprio. "Old Ideas" não começa propriamente onde o anterior terminou - até porque é um dos discos do canadiano mais minimalistas em muito tempo -, embora a marca de quem o assina seja, como sempre, inegável e inimitável.
As regras da atração
Basta ouvirmos os primeiros versos do tema de abertura para percebermos que, apesar do relativo pousio criativo, Cohen não perdeu o sentido de humor - neste caso, um humor mais auto-depreciativo do que nunca. "I love to speak with Leonard/ He's a sportsman and a shepherd/ He's a lazy bastard/ Living in a suit", canta no arranque de "Going Home", canção em que parece sentir-se em casa ao abordar temas habituais na sua obra: amor, sacrifício, derrota. Ou ainda desejo e morte, que dançam a partir dos sussurros de "Darkness", primeiro avanço para o disco e um dos seus momentos mais insinuantes - e também dos mais crus, sugerindo que este pode ser um álbum de despedida em confissões como "I got no future/ I know my days are few/ The present's not that pleasant/ Just a lot of things to do".
A sequência de "Darkness", "Anyhow" e "Crazy to Love You" é, aliás, a melhor de "Old Ideas", com as palavras de Cohen a reclamarem especial atenção nas atmosferas mais rarefeitas do alinhamento, que diluem blues, folk ou jazz. Mais do que cantar, o canadiano de 77 anos recorre ao spoken word em relatos sobre o desejo ("I'm naked and I'm filthy/ And there's sweat upon my brow") ou a entrega obsessiva ("Had to go crazy to love you/ Hate to let everything fall/ Had to be people I hated/ Had to be no one at all"), despindo as canções mas garantindo que não deixamos de o escutar.
Anjos e demónios
Bom vivã incapaz de renunciar ao pecado, Cohen continua a dar-se a luxo de ter anjos a cantar para ele - ou pelo menos assim nos soam as Webb Sisters, Sharon Robinson ou Dana Glover, que deixam a voz grave do canadiano muito bem acompanhada. A redenção, pelo menos parcial, chega com "Come Healing", longe da ambiência quase bas fond das antecessoras, embora com a mesma intensidade. Este contraste entre o espiritual e o trival, o sagrado e o profano, marca também "Amen", em que Cohen não se sai mal a fazer-se passar por Tom Waits, de cujo timbre se aproxima sem que o imaginário da canção deixe de ser seu.
Apesar de "Banjo" e "Lullaby", algo modestas tanto nas melodias como nas letras, refrearem ligeiramente os ânimos na reta final, o remate de "Old Ideas" faz-se com mais um exemplo de eloquência muito particular, em "Different Sides" (com a crispação emocional a resultar em versos como "Both of us say there are laws to obey/ But frankly I don't like your tone/ You want to change the way I make love/ I want to leave it alone"). Enquanto Cohen continuar a deixar-nos discos com canções assim, a falta de ideias novas a que o título alude não deve ser entendida como defeito, mas feitio. E como o dele há poucos.
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