28 de março de 2011
Em "Femme Fatale", como em todos os álbuns de Britney Spears, o que interessa é a cobertura e não o recheio. E nesse aspecto, o sétimo disco da cantora norte-americana, editado hoje, funciona como um eficaz encontro de tendências da produção electrónica dançável.
No videoclip de "Hold It Against Me", single de avanço para "Femme Fatale", não faltam distracções e efeitos: planos curtíssimos, trocas de indumentária, muitos bailarinos, lutas corpo-a-corpo, tinta disparada por dedos, aparato tecnológico... e, lá pelo meio, Britney Spears a cantar, dançar e lutar, mesmo que nem sempre pareça muito à vontade - de mulher-fatal terá pouco, por mais justa que seja a roupa.
Nos discos, o cenário não muda muito. Se em alguns a cantora de "...Baby One More Time" ainda co-escreveu duas ou três canções, na maioria surge apenas como intérprete (e com limitações evidentes). Tudo o resto fica por conta de uma equipa que, em "Femme Fatale", contém cerca de quarenta envolvidos só na composição e produção - lista que não inclui o nome de quem assina o álbum.
Ao contrário de Madonna ou Lady Gaga, que goste-se ou não têm trazido marcas de personalidade bem vincada à pop, Britney Spears nunca foi mais do que uma cantora-objecto, uma peça sem especial visão própria entregue ao laboratório dos produtores.
Está longe de ser a única, é certo, mas é das poucas que tem conseguido manter um percurso mediático já com alguma longevidade (o primeiro álbum data de 1999), não obstante as crises pessoais pelas quais também se fez notar (quando a imagem de inocência dos primeiros dias deu lugar a uma conturbada vida familiar).
"Femme Fatale" chega com a casa aparentemente mais arrumada e desta vez, ao contrário do que ocorreu nos dois álbuns anteriores, não dá eco à relação atribulada de Britney Spears com a fama (abordada em "Piece of Me", um dos seus melhores singles, ou "Circus").
Sem reflexões nem melancolias, o disco tem em vista a pista de dança e, para atingir esse objectivo, deixa de fora quaisquer resquícios das habituais baladas ("Criminal", o último tema, é a única excepção, mas encerra bem o alinhamento e não destoaria em "American Life", de Madonna).
Em equipa que ganha não se mexe
Num caldeirão que junta traços eurodance, hi-NRG, trance, electro ou dubstep, Britney surge mais robótica do que nunca - com a voz
encharcada em auto-tune -, mas faz jus ao título do disco e nunca deixa de falar de relacionamentos e sexo (até há espaço para a recuperação de uma das suas expressões-chave, em "Inside Out", quando canta "Hit me one more time, it's so amazing").
Tal como em "In the Zone" (2003) e "Blackout" (2007), os seus álbuns mais conseguidos, a cantora prova que é pelas manipulações de terceiros que os seus temas merecem atenção. Também à semelhança desses, "Femme Fatale" é uma ode à pop sintética, ainda que com altos e baixos.
O arranque em modo montanha-russa de "Till the World Ends" é infeccioso e deixa bem expressas as ambições dançáveis (a canção é escrita por Ke$ha e, por isso, qualquer semelhança com "Blow", da própria, não será pura coincidência).
Além deste tema, Dr. Luke e Max Martin, colaboradores de longa data, produzem "Inside Out" ou "Seal It With a Kiss", cujas camadas e distorções vocais estão a meio caminho entre o dubstep e os Crystal Castles (em formatos facilmente digeríveis).
Mais ousadas, as canções a cargo da dupla Bloodshy & Avant (a responsável por "Toxic") são outros pontos altos: a discreta e sussurrante "How I Roll" mostra uma inesperada candura e "Trip to Your Heart", embora menos inventiva na composição, compensa com curiosas texturas fatiadas.
A participação de will.i.am é que fica por esclarecer, uma vez que "Big Fat Bass" soa a lado-b dos Black Eyed Peas - mesmo que fosse um lado-a já seria longe de obrigatório - e alonga-se sem grande propósito. A outra convidada do disco, Sabi, pouco acrescenta a "(Drop Dead) Beautiful" e "Troube for Me" ou "Gasoline" revelam alguma eficácia mas pouco brilho.
E depois há "Hold It Against Me", o tal single de avanço em que Britney canta "You seem like paradise and I need a vacation tonight". "Femme Fatale" não será paradisíaco, mas quem deixar o cérebro tirar umas férias - dando um desconto às letras das canções - tem neste blockbuster electrónico um motivo válido para não dar descanso ao corpo. E a pista de dança também agradece esta relativa lufada de ar fresco.
"Femme Fatale" pode ser ouvido no Musicbox.
Videoclip de "Hold It Against Me":
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