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Disco da semana: The Killers, nascidos para lutar

18 de setembro de 2012

18 meses – e um álbum de Brandon Flowers – depois, os The Killers regressam com “Battle Born”. Um disco que nos traz uma visão sombria e ambígua (tanto catastrófica, como esperançosa) sobre a vida, o destino e as consequências das nossas escolhas.

Quem gostava do tom indie de “Mr. Brightside”, da irreverência de “Somebody Told Me”, da poesia de “Human” ou do frenesim de “Spaceman”, prepare-se para ser surpreendido por um rock heartland, old-school a fazer-nos reviver artistas como Bruce Springsteen, The Eagles, ou até mesmo The Cars.

“Battle Born” começa por ser um convite à introspeção. É difícil de ouvir. Como diria Pessoa, primeiro estranha-se, depois entranha-se. As letras, desta vez menos pop, chegam-nos da conspeção umbrosa de “Flowers” que transforma este álbum no mais sátiro, nostálgico e emotivo, assemelhando-se mais a Flamingo – disco a solo do vocalista - do que a qualquer outro da banda de Las Vegas.

“Runaways”, o single que já toca por todas as estações de rádio, é uma música que resume o novo disco na perfeição. Fala-nos sobre a efemeridade, a perda, sobre um “ontem” que é sempre muito melhor do que o “hoje”, as loucuras da juventude, o amadurecimento e as responsabilidades, a noção de família, o distanciamento que criamos e os fantasmas em que nos transformamos ou que caminham connosco ao longo da nossa existência, temáticas essas revisitadas ao longo de todo o álbum.

Flesh and Bone” é talvez a música mais catchy do álbum, conquistando-nos pela sua simplicidade e pelos quadros que Brandon pinta com as suas palavras [This natural selection picked me out to be / A dark horse running in a fantasy/ (…) I square up and break through the chains / And I head like a raging bull]. Já “The Way It Was” tem uma sonoridade tipicamente americana, a lembrar as paisagens desérticas de Las Vegas, que chegam mesmo a ser citadas, e regressa à temática de um passado bem mais solarengo (“Can it be the way it was when we met?).

“Here With Me” lembra Bryan Adams num tom de balada pop com uma introdução calma e uma voz arrastada. É também uma letra mais doce, sempre sofrida, mas que já fala de possibilidades e de desejos, de capítulos concretos e não apenas de perdas irremediáveis que o cantor chora por todo o álbum – talvez pelo profundo abalo que o vocalista sentiu ao perder a mãe para um cancro cerebral há cerca de dois anos. “A Matter Of Time” tem uma entrada carregada de guitarradas, bateria e muitos sons vocálicos - soa mais ao rock ao qual a banda nos habitou.

“Deadlines and Commitments” tem muitas notas agudas, conselhos e uma oferta de porto de abrigo. Os tons eletrónicos (nesta música, em particular, muito Depeche Mode) culminam em “The Rising Tide”. As notas mais eletrónicas da introdução desta última faixa transportam-nos até Jean Michel Jarre ou Mike Oldfield e são o clímax deste estilo, que vai fazendo as suas aparições esporádicas um pouco por todo o disco (como, por exemplo, no final de “Battle Born”). “The Rising Tide” divide ainda a temática do impacto que têm as nossas decisões no nosso futuro com “From Here On Out”.

“Miss Atomic Bomb” é talvez a música mais bem recebida pela crítica e a mais interventiva. Não esconde a ironia e o escárnio usando uma jovem e bela mulher como metáfora da bomba atómica numa clara alusão à fotografia de Don English [na foto] (“But sometimes in dreams of impact I still hear / This atomic bomb / I'm standing here, sweat on my skin / With this love I've created / This atomic bomb”).

“Heart Of a Girl” e os arrastos e ecos de algumas sílabas fazem, de um modo curioso, Brandon Flowers assemelhar-se a Bono, vocalista dos U2. O próprio baixo na entrada da música aproxima-a do tom da banda irlandesa e o diálogo entre pai e filho (I believe that we never have to be alone), quando em comparação, leva-nos a “Sometimes You Can’t Make It On Your Own”.

“Be Still” é, talvez, a música mais enquadrada com a banda: tem algo de monárquico, épico e um tom medieval e arrepiante rematado pelo coro, as notas suspensas de Flowers e o piano/órgão que acompanham a letra conservadora, letra essa que é um incentivo à luta, ao trabalho árduo e à manutenção da identidade contra um mundo virado contra nós.

“Battle Born” é, simultaneamente, a música que batiza e encerra o álbum. Uma canção cheia de força sobre disputa e que, com toda a bateria e robustez, nos recorda, remotamente, “Eye of The Tiger" dos Survivor. Apesar de ter um início fatídico e supersticioso acaba por nos fazer acreditar que, mesmo depois de todos os obstáculos e problemas que Brandon nos cantou desde a primeira música até ali, vai acabar por ficar tudo bem (When they knock you down / You're going to get back on your feet / And you can't stop now).

Porque mesmo que tenhamos perdido o nosso brilho, os nossos sonhos não morrem e nós persistiremos.

Um álbum que vale a pena ouvir para se compreender a profunda ligação às raízes ("Battle Born", o título do álbum, é uma das expressões usadas para caracterizar o estado de Nevada), a transformação da banda e o quão multifacetado, nubloso e singular consegue ser Brandon Flowers.

@Raquel Cordeiro

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