17 de agosto de 2012
O novo álbum dos Best Coast parece feito à medida deste verão: não é dos melhores, mas vai tendo os seus momentos. Sem deslumbrar, "The Only Place" cai bem como banda sonora de dias soalheiros e preguiçosos, mesmo que seja tão esquecível como muitos deles.
Há dois anos, o verão (indie, pelo menos) foi dela. Bethany Cosentino, metade dos Best Coast, compôs com Nathan Williams, dos Wavves, o casal do momento do cenário hipster, tendo direito a presença assídua na imprensa especializada, blogs e palcos ou a declarações de devoção incondicional. O impulso foi "Crazy for You", estreia promissora que aliava um tom confessional, entre relatos amorosos e um ennui existencial adolescente, a uma pop lo-fi que piscava o olho ao surf rock ou aos girl groups dos anos 60.
Se a apoteose foi rápida, a queda também não tardou: muitos dos que deliraram com o projeto de Bethany Cosentino (vocalista, compositora) e Bobb Bruno (multi-instrumentista) são os mesmos que tecem agora as críticas mais vorazes a "The Only Place", atirando o grupo da lista dos queridinhos para a dos renegados (nada de muito invulgar, diga-se). Mas nem tanto ao mar nem tanto à terra: nem "Crazy for You" era um disco extraordinário (apesar de três ou quatro canções irresistíveis), nem o seu sucessor é um desastre (embora também não nos pareça tão refrescante).
O arranque até é bastante apetecível: a faixa homónima, não por acaso o primeiro single, é salpicada pelo mar californiano e faz-nos querer conhecer o verão de Los Angeles - e ao longo de quase três minutos, a voz de Cosentino, tão doce como as melodias, quase nos leva lá. Logo a seguir, "Why I Cry", "Last Year" e "My Life", mais dadas à temática amorosa, também escorregam bem e compõem a metade mais despachada e cristalina do disco.
Mas nem é preciso chegarmos a meio de "The Only Place" para desconfiarmos - com fundamento - que estas canções nunca nos vão levar a territórios inesperados. Mesmo que o registo midtempo surja intercalado por momentos mais dinâmicos, as faixas são pouco mais do que variações de uma matriz, ainda assim, menos óbvia em "Crazy for You". A produção de Jon Brion trouxe uma considerável operação de cosmética: o que antes ameaçava tornar-se rude, ficando-se por um noise açucarado, contrasta agora com um disco limpo, ameno, indeciso entre a alternative country e os ambientes (pouco tentadores) do rótulo adult contemporany.
A moldura elegante das canções poderia confundir-se com maturidade, não se desse o caso de as letras, sem dúvida o elo mais fraco, continuarem agarradas ao simplismo juvenil de "Crazy for You". Felizmente, Cosentino encarna bem a personagem de pobre menina indie - enfim, também parece estar a fazer dela própria - até porque a produção, mais esparsa, dá espaço à sua voz, cuja conjugação de ternura, entusiasmo e melancolia ainda nos envolve. Não faz com que "The Only Place" tenha a força de uma paixão arrebatadora, mas ajuda a dar-lhe o sabor de um agradável amor de verão.
@Gonçalo Sá
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