SAPO Música

Musicbox - Toda a música em qualquer lugar
Siga-nos também no MEO: MEO Kanal 549002

Disco da semana: A festa acabou, Scissor Sisters?

28 de junho de 2012

Às vezes, muitos e bons convidados não chegam para fazer uma grande festa. Os Scissor Sisters que o digam: "Magic Hour" junta gente como Boys Noize, Calvin Harris, Pharrell ou Azealia Banks, mas a música nem sempre sai a ganhar apesar (ou por causa?) desta guest list.

Embora tenham deixado a sua marca na pop desde a década passada, os Scissor Sisters raramente o fizeram através de discos excecionais. Brilharam em alguns singles bem confecionados, é verdade, e brilharam ainda mais nos videoclips e atuações, concentrados de irreverência bem disposta, pastiches oportunos e uma despretensão que gerava, pelo menos, alguma simpatia.
"Night Work" (2010), no entanto, adensou o negrume que algumas letras já comportavam, sem deixar de lado o ambiente festivo, e resultou num terceiro álbum capaz de insinuar uma reinvenção - de que a banda até precisava quando arriscava tornar-se numa caricatura. Quem se ficou pelo single "Fire With Fire" não o soube, mas perdeu um dos melhores álbuns pop dos últimos anos - infelizmente, promovido através de um primeiro avanço cansativo e redutor.

Com "Magic Hour", o novo registo, a história repetiu-se, pelo menos em parte. O single "Only the Horses" voltou a ser uma aposta inicial desapontante, ganhando facilmente o galardão de pior single dos Scissor Sisters. A produção de Calvin Harris e Alex Ridha, ou Boys Noize, não parece ter ajudado, antes pelo contrário: do dramatismo oco à overdose de teclados eurodance, a dupla mostrou-se muito longe do seu melhor, acolhendo os piores tiques da pop eletrónica mainstream recente (da qual David Guetta continua a ser o modelo pouco exemplar). "Shady Love", outro dos primeiros avanços, sempre foi mais sugestivo, mantendo Ridha na produção e convocando Azealia Banks, uma das promessas hip-hop do momento, para acompanhar Jake Shears, que aqui se estreou como rapper. Em alguns momentos a experiência soou mais a Black Eyed Peas do que a Scissor Sisters, mas compensou essa proximidade com um refrão forte e algum espírito aventureiro.

Videoclip de "Shady Love":

Depois destas amostras, chegamos a "Magic Hour" e vemos que nem tudo está perdido: o disco não tem mais nada tão banal como "Only the Horses", mesmo que nem sempre acerte e que saia a perder na comparação com "Night Work". As direções apontadas são quase tantas como os convidados, que além dos já referidos incluem John Legend, Pharrell Williams ou Stuart Price. O curioso é que os Scissor Sistors até se saem melhor quando os dispensam, caso do divertido episódio hedonista "Let's Have a Kiki", com uma arquitetura rítmica elaborada e convidativa, ou da revisitação house anos 90 de "Self Control", que os Hercules and Love Affair não desdenhariam (na qual Ridha tem, ainda assim, uma pequena participação na produção).

Na maioria dos outros momentos, a banda mostra-se bem menos exuberante, propondo um alinhamento estranhamente recatado. E se até nem se sai mal nesse registo, fica por esclarecer o que é que os produtores ofereceram a canções como "Baby Come Home" ou "Inevitable", onde os Scissor Sisters olham para os seus primeiros álbuns (e, por extensão, para os dos Bee Gees ou Elton John). Já "Keep Your Shoes On", um raro acesso dançável, ou "San Luis Obispo", variação acústica de sabor latino, entretêm sem deslumbrar.

Entre o familiar e tentativas de viragem, a maior surpresa de "Magic Hour" acaba por ser a vertente baladeira, expressa no tom 80s e no relato de incertezas de "Year of Living Dangerously", na doçura (não enjoativa) de "Best in Me" ou na melancolia elegante de "The Secret Life of Letters" (Jake Shears não é Rufus Wainwright, mas aqui quase nos engana). Mais medidativos do que festivos, estes momentos também provam que vale a pena prestarmos atenção às letras, qualidade que a imagem do grupo por vezes ofusca.

Sem nunca atingir a magia que o seu título sugere, o quarto disco dos Scissor Sisters também está longe de fazer com que alguém lhe rogue pragas. E revela até algumas recompensas para audições repetidas, sobretudo nos temas menos imediatos, mesmo que a dispersão o aproxime mais de um conjunto de canções soltas do que de um álbum pensado enquanto tal. Para a próxima, talvez seja melhor despachar os convidados e aproveitar para arrumar a casa.

@Gonçalo Sá

Notícias Relacionadas

Scissor Sisters: sucessor de "Night Work" chega a 28 de maio

Os Scissor Sisters regressam às edições em maio, com “Magic Hour”. Os Scissor Sisters regressam às edições em maio, com “Magic Hour”. O quarto álbum de estúdio da banda de I Don’t...+

Scissor Sisters no Cascais Music Fest: o concerto em imagens

Os Scissor Sisters passaram, ontem à noite, pelo Hipódromo Manuel Possolo, para o segundo concerto do Cascais Music Fest, que recebeu, na noite anterior, os Keane. Os Scissor Sisters passaram,...+

Scissor Sisters anunciam hiato no último concerto da digressão britânica

O grupo nova-iorquino terminou esta semana a sua digressão pelo Reino Unido, com um concerto prolongado, em jeito de agradecimento aos seus fãs, anunciando a separação perto do final do...+

Vai uma kiki com os Scissor Sisters?

O vocalista e guitarrista contaram-nos o que é preciso para se ser um Scissor Sister, elogiaram as pernas dos sapos e ficaram intrigados com a kiki portuguesa. Em entrevista ao SAPO Música, Jake...+

Scissor Sisters confirmados no Cascais Music Fest

Os norte-americanos são a mais recente confirmação no cartaz do Cascais Music Fest, que decorre no Hipódromo Manuel Possolo, de 16 a 29 de julho. Os norte-americanos Scissor Sisters são a mais...+

Sugestões

Comentários

Musicbox

Destaques / musicbox

Na rede