13 de novembro de 2010
Para quem pretende aparecer nos jornais como a maior organização policial do planeta, a última missão dos Interpol em formato longa duração havia deixado muito a desejar. Se “Turn on the Bright Lights” (2002), “Antics” (2004) e mesmo “Our Love to Admire” (2007) estão escrevinhadas nos anais da história da espionagem como nomes de código de operações de grande envergadura, já “Interpol”, a missão levada a cabo este ano, foi como ter a tarefa de apanhar uma velhinha que roubou uma lata de atum no supermercado da esquina.

Indiferentes a isto, foram muitos os que compareceram na noite de ontem no Campo Pequeno para o congresso Interpol 2010, que registou uma grande enchente. Apesar da edição recente do manual “Interpol”, que inclui novas temáticas tais como lidar com o “Success” ou contornar as “Barricades” que se formem no decorrer de um trabalho no terreno, continuam a ser os velhinhos “Antics” e “Turn on the bright lights” a despertar a curiosidade maior na assistência, com tratados como “Narc”, “Slow Hands”, “C`mere”, “Untitled”, “PDA”, “Obstacle 1” e “Stella” a revelarem o desejo de muitos virem um dia pertencer aos quadros da maior força policial do planeta.
Porém, se compararmos este congresso com o do Coliseu dos Recreios de há três anos, foi claramente uma desilusão. Além da qualidade sonora estar longe do desejável, os membros da Interpol pareciam estar a dissertar em modo de piloto automático, sem chama, desligados, cada um no seu pequeno mundo de complicadas explanações teóricas.
Paul Banks (vocalista), o orador principal, esteve particularmente desinspirado, muito monocórdico e sem conseguir expressar qualquer melodia ou musicalidade. David Pajo (baixo), que substitui na força policial o desistente Carlos Dengler, não mostrou também dotes de grande orador. Enquanto Dengler se mostrava adepto das vias “New Order”, “The Cure” e mesmo da menos consensual “Duran Duran”, Pajo segue uma orientação mais hardcore, dando predominância a teóricos que defendem que dançar faz mal à saúde e que essa actividade menos própria deve ser trocada pelo intenso trabalho de ginásio.
Daniel Kessler (guitarra e back vocals) foi o orientador mais inspirado, conhecido no meio pelos seus incríveis passos de dança enquanto apresenta as suas teorias. Sam Fogarino (bateria) esteve irrepreensível, mantendo os presentes despertos quando já se viam algumas bocas abertas em sinal de desinteresse.
Em jeito de apreciação final ao congresso Interpol, podemos dizer que a matéria-prima continua à vista, desde o ar respeitável dos oradores à vontade de pôr atrás das grades os grandes criminosos do planeta sem olhar a fronteiras. Porém, se continuarem a passar uma imagem de desleixo e falta de química, os Interpol arriscam-se a trocar o belo trabalho de investigação pelo da caça à multa.
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